Os pressupostos e paradigmas da Educação Salesiana
Pe. Dilson Passos Júnior
Dom Bosco nasceu aos 16 de agosto de 1815, num pequeno aglomerado de casas, próximo a Turim, no norte da Itália, chamado Becchi, sendo seus pais humildes camponeses. Perdeu seu pai, Francisco Bosco, quando tinha dois anos, assumindo sua mãe, Margarida Occhiena, a educação dos três filhos. Em 1835 entra para o seminário. No dia 05 de junho de 1841 é ordenado sacerdote, e, em 08 de dezembro do mesmo ano, funda o primeiro Oratório Festivo atendendo jovens e crianças migrantes numa Turim que via nascer a industrialização. No ano de 1853 iniciam-se suas primeiras oficinas de ensino profissional, e 1859 funda os salesianos com a finalidade é promover a educação da juventude pobre e desamparada. Em 1883 chegam ao Brasil os primeiros salesianos, que se estabelecem inicialmente em Niterói, a seguir São Paulo e posteriormente em Lorena em 1890, terceira casa do Brasil. Aos 31 de janeiro de 1888 morre em Turim.
Dom Bosco, como educador, buscou dar respostas às necessidades sociais de juventude de sua época, quando o campo não mais oferecia condições de sobrevivência e as indústrias assentavam suas bases no norte da Itália. Muitos jovens vivendo sem família, passando fome e morando em condições subumanas, ficavam sem referências morais e religiosas, o que favorecia seu ingresso nos vícios e em atitudes anti-sociais e até criminosas, que muitas vezes faziam que um grande contingente deles acabasse superlotando as cadeias.
Sua ação educativa junto a esses jovens vai ganhando respeito e procurava-se, então, saber qual o seu "segredo" pedagógico. Com pouco tempo para escrever tratados de educação, empenha-se, inicialmente, nas cartas onde, deixando transparecer seu pensamento de educador, anima, dá instruções e mantém contatos com pessoas influentes em busca de recursos e apoio. Instigado por Pio IX e por várias circunstâncias acaba "colocando no papel" alguns de seus princípios fundamentais de educação. Escritos em momentos roubados de sua ação, esses textos, se curtos, são porém objetivos e claros na descrição do que até então realizava como prática e que passa agora a ser materializado em textos. Não são teorias que deverão sofrer confronto com a realidade para provarem sua eficiência, mas é já a descrição daquilo que praticava em suas obras.
A esses princípios educativos denomina de Sistema Preventivo que se apóia em três pilares: Razão, Religião e Bondade. Com a razão faz o jovem entender a lógica e os objetivos de seus mestres, sabendo que essa ação educativa não pode ser assumida sem que tenha sido compreendida não apenas pelo educador, mas também percebida como valor pelo educando. A razão deve penetrar e informar o terceiro elemento do seu sistema educacional, o carinho conhecido como “amorevolezza”. Esse "amor demonstrado" faz da ação educativa uma relação filial e fraterna. “Não com pancadas, mas com mansidão e com a caridade é que deverá ganhar esses teus amigos”.
A vivência pedagógica de Dom Bosco constituiu-se em estar fisicamente junto aos educandos, gostar do que gostam e deixar que percebam que são amados. Inspirando-se no princípio de que a criatura humana não é perfeita, mas capaz de alcançar a perfeição, entende que essa imperfeição envolve a natureza física, psíquica e moral. O educador é o responsável por essa passagem da imperfeição para a perfeição, exigindo que cada educador conheça a capacidade de seu educando em responder aos estímulos formativos. Procurava conhecer seus educandos individualmente para conquistá-los como amigos sabendo que é necessário conhecer o homem naquilo que ele é para poder transformá-lo naquilo que deve ser.
A educação é a arte e a ciência de formar o homem. O importante nesta educação é a formação, cuja finalidade é aperfeiçoar o jovem, até fazê-lo homem, tornando-o "bom cristão e honesto cidadão". Não acreditava numa formação reducionista do corpo ou da alma, mas da natureza humana com um todo.
No campo físico-fisiológico vê no esporte um meio para o desenvolvimento físico, dando maior capacidade de assimilação da inteligência, alegria de viver e meio de descontração para aquele que o pratica. No campo psíquico-moral, o trabalho educativo auxilia na percepção dos valores e uso correto da vontade. A escola deve trabalhar a afetividade e a vontade livre, que dirigem a ação e a vida do educando habilitando-o a perceber, refletir, julgar e raciocinar.
Além da inteligência outro elemento que merece destaque na formação do educando é a vontade associada ao coração. Cumprir todos os deveres exige uma vontade firme e decidida, e, para isso, muitas vezes, torna-se necessário amar. O resumo de toda a educação consiste em que o jovem conheça o bem e que o queira fazer, sendo uma pedagogia coordenada pela razão, pelo bom senso e pelos valores da religião.
O educador deve se fazer presente de forma significativa na vida de seus educandos, não se ocupando com outros afazeres. Entre os elementos presentes no método educativo de D. Bosco está o ambiente ao qual dá absoluta importância. Todo o ambiente é educativo, quando impregnado de espírito cristão, onde o jovem encontra espaço de liberdade e responsabilidade, que favorecem a construção de sua personalidade.
Finalmente o educador, para D. Bosco, não pode se considerar uma fonte autônoma de educação, mas um delegado e um transmissor de valores. É um “indivíduo consagrado ao bem de seus alunos, e, por isso deve estar pronto a enfrentar qualquer incômodo e canseira para conseguir o fim que tem em vista: a formação cívica e científica dos seus alunos”. Ele é, no sistema de D. Bosco, pai, e por isso deve possuir toda a bondade e prudência do mesmo, dirigindo os alunos, aconselhando, corrigindo e os acompanhando. Uma forte característica do educador salesiano, já observada no próprio comportamento de D. Bosco, é o acolhimento, que sabe prender e amarrar afetivamente.
Dom Bosco não praticou um modelo de educação preso a fórmulas, mas buscou responder à evolução dos tempos salvaguardado os valores fundamentais da formação humana e adaptando-se ao mundo atual em mudança.
Alguns elementos são perenes na cosmovisão salesiana: a crença na juventude e na sua capacidade de ser protagonista de sua própria história. Esta crença otimista na juventude se reflete em entendê-la como construtora da história e uma abertura dos educadores ao novo, ao contemporâneo.
O tripé educativo – Razão, Religião e Bondade respondem aos anseios profundos de todo jovem enquanto ser humano. O educador salesiano procura conduzi-lo o pela racionalidade. A religião corresponde aos grandes anseios espirituais de todos os seres humanos, independente de seu credo religioso: é sua necessidade do Absoluto, de transcender. A bondade é uma necessidade psicológica de ser acolhido, respeitado e valorizado. Esses princípios não são livrescos, mas se materializam numa presença física efetiva e afetiva do educador. João Bosco entende que nada disso acontece em esquemas mentais os discursos teóricos, mas é construído no dia a dia, no pátio, nos pórticos, nas salas e nas quadras de esporte. O educador se faz amar tornando-se um referencial para o educando, não como mero transmissor de conhecimento, mas como educador que interfere na totalidade da vida do jovem sendo aceito por este como um referencial de presença e amizade. A exigência educativa supõe uma postura do educador onde o aluno é visto como pessoa, como companheiro e como amigo. É uma relação que transcende à simples prática profissional da formação acadêmica ou profissional.
O projeto educativo de Dom Bosco tem por objeto a pessoa humana em sua totalidade. As modernas empresas traçam um perfil de funcionários que não sejam apenas técnicos, mas, pessoas que sejam marcadas por valores humanos de relacionamento, honestidade, empenho, trabalho em equipe e emprendedorismo. Esses princípios visam nas empresas modernas à produtividade e eficiência. Essas são necessidades reais, mas o escopo da educação salesiana é,sem decurar essas necessidades, valorizar a pessoa humana enquanto pessoa. E isso se constitui numa pedagogia baseada num claro humanismo otimista que crê nas potencialidades do ser humano como agente transformador da sociedade.